ESPERA SEM FIM




Um mês depois.

Diana ainda caminhava dentro de casa esperando um telefonema que teimava em não vir. Ela tinha passado o último mês envolvida numa busca que se mostrou completamente infrutífera e nutria esperança de que o namorado a contatasse. Procurou por ele em todas as partes desde que desaparecera misteriosamente naquela noite chuvosa em que a tinha acompanhado até à casa dos pais dela depois de não se sentir suficientemente seguro para deixar que ficasse em sua própria casa. Desde então nunca mais o viu.
Ela foi procurá-lo na casa da família dele no dia seguinte ao dia em que tinham presenciado a estranha forma nebulosa na casa de Patrícia, mas os pais de Ângelo já mostravam grande preocupação pelo fato de ele jamais ter chegado em casa. Estavam todos muito nervosos, mas aquilo não os impediu de sair para procurar nas proximidades.
Encontraram o carro dele devidamente estacionado no pátio da garagem, mas as portas não estavam trancadas; dentro do veículo não havia nada de diferente ou que chamasse a atenção, pelo contrário, tudo estava exatamente como deveria estar.
Os pais de Ângelo, Miguel e a própria Diana averiguaram as redondezas, conversaram com vizinhos e tentaram incontáveis contatos telefônicos com ele, mas nada deu qualquer resultado. O telefone chamava e a chamada sempre terminava indo parar na caixa de mensagens. Ele parecia ter desaparecido completamente da face da terra; algo que não podia ter ocorrido. Ao menos, não de uma forma comum.
Diana desconfiava firmemente que o desaparecimento tinha ligação com a criatura hedionda que haviam visto, mas não contou absolutamente nada à família do namorado, não podia falar algo tão estranho como aquilo e, além disso, quem acreditaria se ela contasse?
Limitou-se a pedir ajuda a Patrícia, Heloi e Mônica. Estava completamente desesperada e não sabia mais a quem recorrer, não poderia conversar com ninguém mais no mundo a respeito de seus temores. Todos se engajaram completamente na busca pelo paradeiro de Ângelo, mas nenhum deles conseguiu encontrar um fio de cabelo que fosse. Assim se passou o mês inteiro.
A família de Ângelo entrou em contato com a polícia para comunicar o desaparecimento logo na primeira semana, todos foram ouvidos, assim como Diana também por se tratar da namorada dele e também por ter sido a última pessoa que o viu naquela noite quando se despediram. Paralelamente a investigação da polícia, a família confeccionou cartazes com uma foto de Ângelo e espalhou em vários pontos do município e também de municípios vizinhos; Diana ajudou levando vários folhetos a lojas e estabelecimentos comerciais enquanto Miguel colava cartazes em postes. Nada surtiu efeito, não receberam nenhuma ligação que pudesse dar qualquer dica sobre onde Ângelo podia estar.
Os dias seguintes foram de ansiedade e aflição; a total falta de notícias foi minando principalmente as esperanças de Diana porque ela sabia sobre a criatura, sobre as visões e vozes que perseguiram Ângelo durante quase todo o tempo de vida, mais ninguém na família dele sabia sobre aquele assunto e por esse motivos ainda mantinham vivas as expectativas de que pudessem encontrá-lo novamente mesmo depois de um mês inteiro de buscas que não deram em nada.
O telefone finalmente tocou. O aparelho estava sobre a mesa do escritório de Diana, ao lado do computador portátil; ela entrou correndo no cômodo, tinha saído para buscar algo para beber enquanto aguardada o telefonema. E embora estivesse constantemente vasculhando a internet, já não conseguia trabalhar fazia duas semanas, estava impossível se concentrar.
Por um momento ela quis acreditar que Ângelo estaria do outro lado da linha e que todo aquele circo era apenas um sonho ruim que teimava em se estender, mas logo que se aproximou do aparelho e o tomou nas mãos viu na tela que o número que estava fazendo contato era na verdade o número de Patrícia.
Tocando na tecla para receber a ligação Diana atendeu:
_ Oi. A voz soou triste, decepcionada._ passou os últimos três dias tentando se convencer de que seu namorado ia ligar para ela, mas a cada telefonema de outra pessoa que atendia, suas expectativas diminuíam mais e mais.
Patrícia respondeu do outro lado:
_ E então, alguma novidade?
Diana se sentou atrás de sua mesa com um suspiro escapando pelos lábios.
_ Não, Nenhuma.
Patrícia estava ficando tão preocupada com ela quanto com tudo o que estava rodeando-os nos últimos dias.
_ Como você está?
Diana balançou a cabeça negativamente como se a outra pudesse ver o gesto do outro lado da linha.
_ Estou péssima; isso tudo esta acabando comigo. Não sei quanto tempo ainda vou suportar.
_ E quanto aos pais dele?
_ Estão ainda piores do que eu. Mas são fortes e persistentes, estou buscando forças no exemplo deles.
Patrícia estava sendo de grande ajuda, sobretudo no tocante a manter Diana com o ânimo elevado, conversavam todos os dias pelo menos alguns minutos, foi assim durante todo o mês, mas estava ficando cada vez mais difícil mantê-la firme. De todas as pessoas próximas que estavam envolvidas na busca Diana era a única que ainda não tinha chorado desde que Ângelo desaparecera, não tinha derramado nem uma única lágrima, mas aquilo se devia especialmente pelo amor que sentia por ele; Diana imaginava que se chorasse ou demonstrasse desespero estaria demonstrando fraqueza para si mesma e fraca era algo que ele jamais foi. Porém, não ter se entregue completamente ao desespero, mesmo que fosse somente por um instante, estava se tornando um peso cada vez mais insuportável para carregar e a constituição emocional dela talvez não permitisse suportar por muito mais tempo.
Diana tinha prometido que não choraria até que encontrasse ele novamente e todas as noites tinha que sufocar a vontade e reprimir o aperto em seu coração.
_ Você acha que aquela coisa pegou ele? _ Patrícia já tinha feito essa mesma pergunta várias vezes durante o último mês, mas não sabia muito bem o que dizer daquela vez, sempre que isso acontecia, ela repetia as perguntas.
_ Eu sinceramente não sei mais. Queria ter certeza, mas todos os dias me pergunto por que a criatura não o pegou quando se mostrou a todos nós, ou por que não levou qualquer outro de nós, ou Ricardo?_ Suspirou outra vez.
Não houve resposta ou comentário algum do outro lado da linha e Diana continuou falando:
_Às vezes penso que ele está muito mais perto do que nós pensando, ontem tive a sensação de que alguém ou alguma coisa estava me observando. Sabe do que estou falando?
Tentando contemporizar, Patrícia falou:
_ Acho que você deve descansar um pouco._ ela achava que Diana estava gradativamente sucumbindo à vontade de crer que o namorado estava por perto. Assim conseguiria algum conforto, mesmo que fosse ínfimo.
_ Eu sei que parece loucura, mas nós duas sabemos bem que o que parece loucura pode muito bem ser verdade._ estava se referindo novamente a aparição.
_ Eu sei de tudo isso, mas ainda acho que você deve descansar, todo esse estresse pode fazer mal a você.
_ Prometi que não ia parar até encontrá-lo. Como posso descansar?
_ Todos nós prometemos Diana, ou você se esqueceu de que ele salvou a vida da minha filha. Devo muito a ele, todos nós devemos muito a Ângelo. Ele vai aparecer.
As duas sempre evitavam aventar a possibilidade de que ele jamais aparecesse ou algo pior.
_ Está certo, acho que você tem razão. Vou procurar descansar um pouco.
_Então está bem. Qual é o próximo passo?
_ Devo me encontrar com a família dele para saber das últimas informações no tocante a polícia e logo que tiver qualquer novidade ligo pra você.
_ Certo. Amanhã ligo novamente.
Diana desligou o telefone e recolocou sobre a mesa, ficou pensativa olhando o aparelho por um segundo e resolveu sair de casa para respirar um pouco, era como se o ar dentro de casa estivesse ficando sufocante e os cômodos mais estreitos. Precisava de ar puro.
Porém quando se virou para deixar o escritório o telefone tocou mais uma vez; Diana já tinha caminhado e se encontrava no limiar do corredor, ficou imóvel um instante até que o aparelho tocou novamente. Ela se virou outra vez e olhando o telefone de longe caminhou devagar até a mesa, o aparelho tocou pela terceira vez.
O coração dela batia acelerado, Diana queria acreditar que desta vez era Ângelo do outro lado da linha, mas sua racionalidade tentava mostrar que havia poucas chances disso se concretizar.
Pegou o telefone e ficou espantada, pois o monitor não revelava número algum; como era possível? O aparelho, ainda na mão dela, tocou pela quarta vez. Diana engoliu em seco e finalmente apertou a tecla para receber a ligação.
_Alô!_ disse, não sabia ao certo o que esperar daquela ligação.
Nenhuma resposta surgiu do outro lado, ninguém falou ou se apresentou.
_Alô!_ Diana repetiu a palavra e ao mesmo tempo tentava escutar qualquer coisa do outro lado, mas não havia nada para ser escutado, nenhum som passava pelo fone, era como um vácuo.
Diana não quis esperar e começou a falar:
_ Ângelo, é você? Por favor, responda.
Nenhum som.
_ O que aconteceu meu amor? Onde você está? Estamos todos preocupados_ Diana falava sem considerar que talvez não fosse seu namorado do outro lado, mas como não escutava coisa alguma vindo pela rede telefônica então resolveu se arriscar.
Nenhuma resposta.
_Fale comigo Ângelo. Diga qualquer coisa; qualquer coisa. Estou desesperada._ ela estava quase se entregando completamente ao desespero, tentava se conter, mas não estava sendo bem sucedida.
Ela parou de falar e ficou ouvindo o nada do outro lado, perdeu a noção de quanto tempo ficou parada e agarrada ao telefone tentando manter a esperança de que fosse ouvir a voz de Ângelo dizendo algo.
Nenhum som, nenhuma palavra, nenhum ruído. Nada.
Quem ligaria para ela se não desejava falar nada, durante o último mês ela não tinha recebido nenhum trote, na verdade não se lembrava se já tinha recebido qualquer trote em seu telefone celular, provavelmente nunca tinha acontecido.
_Fala comigo._ ela balbuciou_ Me dê um sinal.
Nada aconteceu. E de repente a ligação se encerrou.
Completamente desapontada ela recolocou o aparelho mais uma vez sobre a mesa, mas fez aquilo o mais lentamente possível, porque se tocasse novamente ela o atenderia ainda mais rápido. Ele não tocou.
Tinha que seguir o conselho de Patrícia; precisava descansar ou não teria forças para prosseguir. Resolveu ir para o quarto deitar um pouco, sua cabeça estava começando a doer, não era nada sério, apenas uma dor fraca, mas insistente. Talvez um cochilo melhorasse.
Quando se virou para deixar o escritório foi surpreendida por uma coisa estranha que caia do teto esvoaçando e rodopiando em pleno ar. Era um pequeno objeto negro e leve, não maior do que um lápis; o objeto capturou a atenção de Diana enquanto descia e logo que chegou ao chão ela teve a certeza de que se tratava de uma pena negra. Não teve coragem de abaixar para pegá-la, olhou em redor e para cima, mas tudo estava exatamente como antes, não havia sombras subindo pela parede ou qualquer névoa maligna brotando do chão.
Diana abaixou e tomou a pena na mão, examinou cuidadosamente o objeto mesmo sem entender como ele tinha ido parar dentro de sua casa; a janela estava fechada, portanto não havia a possibilidade de uma lufada de vento ou qualquer brisa levá-lo para dentro do cômodo. Seu coração se apertou porque ela teve certeza de que aquilo era um sinal, porém jamais conseguiria interpretá-lo.

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